O que rememora mais os anos 80 do que essa introdução de Star Wars? Talvez os cortes de cabelo estranhos, o som do Legião Urbana e Plebe Rude, as festinhas Hi-Fi onde os rapazes levavam as bebidas e as meninas salgadinhos e a gente dava os primeiros beijos dançando as músicas românticas da trilha sonora da novela das oito. Que mais, deixa eu ver... Ah! Os aparelhos de vídeo cassete, som três em um, Atari, bicicross e etc etc...
A década de 80 não foi nem um pouco chata, muito pelo contrário! Com certeza menos contestadora e rebelde, mas chata nunca! O cinema, a tv e a música dos anos 80 produziram muita coisa legal, a diversão rolava solta e sinceramente acho que aquela juventude ligava menos para o que os outros iam pensar do que a de agora. Mas uma coisa é certa, foi um período excitante para quem aprendeu informática e eletrônica. Quem esteve lá viu a coisa tomar forma e explodir. Também foram anos incríveis.
Na minha rua haviam somente prédios, um ao lado do outro formando um imenso e claustrofóbico corredor de janelas envidraçadas. Os pequenos jardins que decoravam as portarias acabavam servindo de bancos para muito bate papo até altas horas da noite, apesar de nossos pais odiarem muito isso e não conseguirem dormir até o papo acabar e a turma toda ir embora. Os síndicos tentavam regular a turma e pegavam no pé, mas todo o dia estávamos lá, ou então simplesmente ficávamos "pulando" de uma portaria de prédio para outra. Alguns poucos tinham computadores e nós conversávamos sobre tudo, mas principalmente sobre o futuro. Adolescentes falando sobre o que gostavam de fazer, que menina estava ficando mais gatinha (e do lado das meninas vice-versa), para onde queriam ir, quanto queriam ganhar um dia, que carro íamos comprar, cinema, música, tv, esporte, escola e livros... Era ótimo também o fato de que muitos de nós estudávamos juntos nas mesmas salas ou colégios, então reunir para estudar e fazer trabalhos escolares era muito fácil e divertido. Reunia um grupo na casa de alguém e ali ficávamos ouvindo um som e realizando idéias. Essa era outra coisa forte da década de 80, as pessoas iam muito na casa umas das outras. Quem tinha vídeo-cassete chamava para assistir o filme e rachar o preço da locação, quem tinha vídeo game fazia campeonato e reunia a galera, e rolava também sorteio para ver na casa de quem ia ser o "hi-fi" da semana, afinal todo mundo queria fazer o seu e havia competição para saber qual festa tinha sido a melhor. A primeira coisa que você fazia nessas festinhas depois de cumprimentar o dono ou dona da casa era dar um olhada na coleção de discos enfileirados ao lado do som que o pessoal tinha trago. Ali você descobria com quem tinha afinidade ou não. "...caramba! Quem trouxe esse disco do Police?? Nossa! Você tem o novo da Blitz!.." Ou estávamos na casa de alguém ou alguém estava em nossa casa. Um efeito colateral (só para os adolescentes) desse estilo de vida é que assim todas as mães acabavam se conhecendo e formando uma "confraria" entre elas. Uma "rede de informações" que lhes permitiam saber tudo que acontecia conosco, às vezes antes mesmo de nós garotos e garotas! Era como dizia minha professora de história no cursinho quando estudamos a formação da ditadura no Brasil, "...classe média é fóda!..." Mas depois de tanto tempo eu olho para trás e digo com toda a certeza que nossas mães, todas elas, foram sensacionais!
Minha jornada pelo mundo da informação começou por volta de 1986, nessa época a micro informática já era um fenômeno no mundo todo. No Brasil a coisa deslanchou mesmo a partir de 1982. Antes disso houveram lançamentos tímidos de produtos fracos e pouco acessíveis que eram novidades para quem curtia o assunto como hobby de fim de semana e pouca gente produzia algo com aquilo. A maioria das máquinas de oito bits baseadas em Z80 são desse ano. Os maiores fabricantes brasileiros eram as extintas Prológica Computadores, Microdigital e Unitron. Nas escolas, entre 1984 e 1985, clones do Apple II (Unitron), os TK 85 da Microdigital e os espalhafatosos mas competentes CP-500 e S-700 da Prológica dominavam a cena. Estamos falando dos cursos técnicos que integravam o curso científico, antigo segundo grau. Junto às matérias curriculares estavam também lógica, fluxograma, algorítimos, arquitetura de computadores e mais algumas outras que estão lá no velho histórico. As linguagens eram ensinadas no laboratório direto no computador e o primeiro contato com elas era através do Basic, sempre. Uma vez superados os LETs, GOTOs, RESUMEs e as operações de comparação e aritméticas, passava-se para as manobras mais complexas, como gerenciar a memória e gravar em disco (disquetão). Nada de compilação por enquanto, quem fazia tudo era o interpretador Basic que vinha na memória das máquinas. A última fronteira para quem estava aprendendo o Basic era o modo gráfico, uma vez aberta essa porta você ia aonde queria e a máquina permitisse. Produzia-se tudo quanto é besteira quando estávamos engatinhando. Programas para uma bolinha ficar andando na tela até bater em algo e o computador apitar, rabiscar a tela usando as teclas direcionais, ficar inventando nomes randomicamente a cada 10 segundos a partir de um dicionário, usar os tons sonoros para tocar parabéns pra você (só quem tocava violão conseguia achar os tons certos), cá
lculos de todo tipo com números de 4 casas (demorava pra cace...) enfim, o começo era simples, prático e divertido. Isso quando o disk drive não mastigava seu disquete até sair fumaça e depois ainda não deixava você tirar os restos lá de dentro! Quando começava a chiar e a fazer barulho de papel amassando aí meu filho, fudeu!Nesse mesmo período outra máquina teve papel importante nessa história, foi o saudoso MSX. Era o 8bits mais rápido e moderno do mercado, tinha som mais avançado, era colorido e sob medida para uso doméstico. Tinha entrada para cartuchos e suportava inclusive um mouse. Estava presente em muitas casas na época ligado na TV e era figurinha fácil nos classificados de jornal. No Brasil quem disputava esse filão doméstico dominado pelo MSX eram a Gradiente com o seu Expert, empresa esta velha conhecida dos consumidores de eletro-eletrônicos, e a desaparecida Sharp com o seu Hotbit. Fazíamos reunião na casa de alguns usuários para jogar e fazer coisas mais ousadas como por exemplo acessar serviços de BBS pelo modem. O problema era: Estavamos em Juiz de Fora - MG e os BBS da época ficavam todos em S. Paulo e Rio de Janeiro. Bom, a gente acabava dando um jeito para não pagar uma fortuna de conta de telefone =P, truques que não funcionam mais. Desses momentos eu me recordo com muito carinho porque ali faziam-se excelentes amizades. Essas reuniões não chegavam a ser um clube, mas depois a gente vivia se trombando e trocando idéias e descobertas.
Compilador? Linguagem de máquina? Hexadecimal? Binário? Vai cair na prova??
Depois de uma introdução amistosa e tranqüila à programação no primeiro ano vinha uma segunda onda: Os bancos de dados e as linguagens de baixo nível. Os primeiros compiladores que a galera usava eram quase sempre Cobol ou Pascal. Cobol era para aplicações claramente comerciais, sem muita conversa. Meu Deus, quantas páginas e páginas de formulário quadriculado para Cobol eu gastei! Não consigo mensurar mais. Eram dias escrevendo nas folhas, depois o professor avaliava, daí a gente ia para o S-700 e digitava tudo no Wordstar, cada coisa na sua coluna e na sua posição senão o compilador zangava. Meu olho doía ao ficar vigiando o tempo todo no rodapé da tela em que coluna estava digitando. "...cabeçalho aqui, subrotina mais crá, comentários também, cuidado tá fora do lugar...". Mas quando tudo funcionava e você via seu programa para cadastrar clientes funcionando, nossa era o máximo! Tínhamos a prática de copiar tudo de todo mundo, agente fazia e passava para os outros e vice-versa. Nossa, eram muitos disquetes! Frágeis, viviam dando pau. Tenho eles até hoje. Não servem mais para nada, mas nunca consegui jogar fora. E assim os semestres se sucediam, ganhávamos mais confiança, conhecimento e começávamos a voar mais alto até encontrarmos Pascal, C e quem sabe e se desse tempo C++. A partir daqui vivia-se mais intensamente com os códigos, havia a feira de informática que o colégio fazia pouco antes das férias, via-se algumas coisas interessantes, no entanto, o mais legal era a visita de fabricantes nacionais que aproveitavam a chance para expor os novos produtos e máquinas. Me lembro do alvoroço quando levaram o recém lançado Intel 386 rodando AutoCad no evento, tinha fila para ver a demonstração. Essas coisas enchiam a moçada de entusiasmo e havia a perspectiva de que tudo ia evoluir muito rápido e que coisas fascinantes surgiam todos os dias. Era uma atmosfera muito boa apesar da reserva de mercado que colocou o Brasil lá na rabeira da revolução digital que mudava o mundo numa velocidade impressionante, quebrava barreiras e tornava tudo moderno e inteligente.
A essa altura do calendário dois anos já haviam se passado e tínhamos contato com os primeiros PC-XT rodando MS-DOS, Lotus 1-2-3 e Word, porém movidos a disquete ainda. Trabalhávamos com os Banco de Dados dBaseIII e IV. Rotinas de todo o tipo em Pascal, C e por aí vai. Nunca vou esquecer o dia em que ganhei meu primeiro dinheiro vendendo um programa, uma rotina escrita em xBase para um comerciante local realizar controle de estoque, contas a pagar e receber. Foi um bom dinheiro, sem falar que fiz tudo no computador do trabalho e da escola já que eu mesmo não tinha um em casa. Para piorar naquela época a escola fechava cedo e durante várias horas do dia os laboratórios ficavam fechados. Me lembro que nessa época todo mundo usava o Clipper. Um compilador que gerava executáveis para as rotinas dBase. Essa ferramenta realmente marcou época no Brasil e modéstia à parte, era consenso geral de que nós Brasileiros éramos os melhores do mundo em Clipper. Era a melhor ferramenta para desenvolvimento de aplicações em bancos de dados dBase, Paradox e FoxPro, esse último era o "xBase da Microsoft". Clipper era realmente bom e bem construído, funcionava perfeitamente e era muito fácil de usar. Foi o ganha pão e a porta de entrada para muitos na "programação séria" e produtiva.
A corrente do bem para arrumar estágio
Estágio, a fronteira final... Fóda era conseguir um! O processo era basicamente encaminhar aqueles alunos mais dedicados e com melhores notas para as oportunidades que surgiam seguindo a indicação do colégio e o relacionamento entre o mesmo e os seus parceiros comerciais. No último ano vivíamos nos laboratórios e a competição para usá-los era enorme. Trabalhávamos mais em equipe e quem já havia entrado pra o mercado de trabalho ajudava quem ainda estava formando. Uma verdadeira corrente do bem onde quem se tornava empregado da empresa onde estagiava passava a vaga de estagiário para quem mais precisava e ainda não tinha conseguido nada. Muita gente conseguiu vagas muito melhores que as oferecidas pelo colégio dessa forma e na minha turma ninguém terminou o curso sem estagiar, conseguimos colocação para todos, outra vitória de um grupo que sempre esteve junto o tempo todo desde o início. Saudades daquela turma toda...
Admirável mundo novo
Veio a formatura, todo mundo lá, sorrisos, abraços e no final algum choro, amizades que ficam apesar dos amigos que se vão. Nada de Internet nem e-mail ou Orkut. Outro regime, outro país, outra moeda. Histórias e experiências que ficaram ecoando no tempo e na lembrança da garotada dos anos 80. Vieram várias revoluções digitais e loucuras depois da escola,
mas o mundo continua o mesmo, não pára e não espera ninguém. Os computadores continuam mudando tudo, surpreendendo e transformando nossa sociedade. Como dizia o poeta, "...tenho saudades do que ainda não vi...", porque o que está por vir com certeza é ainda mais impressionante. Que as próximas "turmas" possam viver bons momentos e descobertas tão excitantes quanto as nossas...O que você quer ser quando você crescer?

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